Muita disciplina, humildade, coragem para encarar os desafios, respeito ao passado e aos que estão chegando. Ao ouvir Ana Botafogo falar sobre seus 35 anos de carreira, sendo 30 como primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, essas características parecem sintetizar o segredo do sucesso e da carreira duradoura.
Para comemorar, ela decidiu montar Marguerite e Armand, balé inspirado nos personagens de Dama das camélias, de Alexandre Dumas Filho. Trata-se de uma versão do coreógrafo Frederick Ashton, criada especialmente para a bailarina Margot Fonteyn, em 1963, quando ela tinha 44 anos.
A idade da grande bailarina inglesa foi uma das razões da escolha de Ana Botafogo. “Procurei muito algo que ainda não tivesse feito e que pudesse ser um desafio. Fazer Giselle e Coppélia é sempre diferente, mas já fiz 27 anos de cada uma. Acho que Dama das camélias veio a calhar, sobretudo porque foi feita para a Margot Fonteyn uma bailarina já madura”, conta.
Usar a expressão maturidade não significa revelar a idade. “Todo mundo já sabe, mas escreve assim: ela não revela a idade, mas está na maturidade artística”, brinca. Ainda assim, diz que agora seria até vantagem contar o ano de nascimento, afinal, sente estar em boa forma para a idade. “Minha condição física atual é muito parecida com a de 30 anos atrás. Ainda uso as mesmas roupas de balé das grandes produções do Municipal. Minhas medidas são as mesmas, por incrível que pareça”, garante.
A montagem de comemoração ainda não tem previsão para chegar a Belo Horizonte. O plano é entrar em turnê nacional no ano que vem, desde que haja patrocínio. Por enquanto, tem récitas apenas no Rio de Janeiro, hoje e amanhã, e foi apresentada em São Paulo e Curitiba, onde estreou no dia 17.
A escolha da capital paranaense, no Teatro Guaíra, foi simbólica. “Foi lá a primeira companhia profissional em que dancei na vida. Foi o Guaíra que me lançou em turnê nacional, no balé Giselle. Eles foram os primeiros a me dar uma chance, meu primeiro contrato. Achei que deveria comemorar esses 35 anos com eles”, explica Ana.
Depois do primeiro contrato, não demorou para que ela se tornasse a primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1981. A sensação é de que o tempo passou rápido. “Quando penso nesses 30 anos lembro de tudo como se fosse ontem, quando Márcia Haydée era da minha banca e me fez primeira bailarina”, recorda.
Atualmente, Haydée está montando Romeu e Julieta no Municipal. Ana sente que é a vez de dar chance a outras bailarinas. “Desta vez não entrei na montagem da Márcia, porque decidi fazer a Marguerite. É meu momento de deixar as jovens bailarinas do teatro interpretarem Julieta, como fiz 30 anos atrás”, justifica a veterana.
Para o futuro, além da própria dança – sem data marcada para parar –, Ana pretende colaborar com os novos. “Sempre vou estar ligada à dança. Gostaria muito de poder auxiliar jovens bailarinos, seja ensaiando-os ou dando oportunidades. Estou tentando ver o que posso fazer para ajudá-los a despontar na carreira”, diz.
Público fiel
Atualmente, na capital carioca, ela se apresenta ao lado da Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, na primeira parte do programa. “São bailarinos novíssimos, entre 16 e 23 asnos, com muita técnica e vigor. Já que tenho um público, que criei ao longo de 35 anos de carreira, quero que esse público fiel conheça esses jovens bailarinos, que estarão na ativa nos próximos 35 anos”, explica.
Antes de ceder lugar, ela conta o que é preciso para manter o posto durante três décadas. “Muita aula e disciplina. Acho que, talvez, minha carreira tenha sido tão longa porque nunca deixei de me exercitar. Bailarina, até desistir da carreira, tem de fazer muito esforço, muita aula e muito trabalho. Diário. Temos de viver em função do trabalho”, ensina a artista ao garantir que durante toda sua trajetória artística ensaiou seis vezes por semana.
O resultado de tanto empenho acaba se revertendo em dores musculares. Fora do glamour do palco, uma bailarina clássica precisa de esforço e determinação, como explica a artista: “Quando você quer, enfrenta todos os desafios. O bailarino aprende desde criança a conviver com dores. Não deve ser machucado, mas dor muscular é algo que convivemos durante toda a vida, a cada novo balé”.
Ao longo da carreira, Ana Botafogo já se apresentou em 11 países e 100 cidades brasileiras, o que, definitivamente, ajudou a popularizar a dança no país. “Acho que o balé clássico nunca será totalmente popular, até pelos próprios temas da nobreza. Mas durante muito tempo quis levar minha dança para a rua e para perto do povo, para que então fossem ao teatro. Também usei muita música brasileira, para unir clássico ao popular. Acho que fiz minha parte”, avalia.
Perguntada sobre a responsabilidade de ser a mais importante bailarina clássica do Brasil, ela pondera: “Talvez eu seja a mais conhecida, mas há muitos outros importantes, menos conhecidos ou falados. Alguns vão para o exterior por falta de campo de trabalho, o que é uma pena, porque temos bailarinas maravilhosas fora do país”, conclui, com a humildade das grandes.
Destaques da dança mineira, Lina Lapertosa, de 58 anos, e Sônia Mota, de 63, continuam brilhando no palco. Essa dupla derruba a tese de que a carreira é obrigatoriamente curta
Enquanto sentir que dá prazer, vou dançar ,diz Lina Lapertosa
Arte não tem idade
Ana Botafogo avisa: “Não é estigma. A bailarina tem carreira curta, menor do que qualquer outra. Às vezes, no auge da juventude, temos de parar, porque o esforço físico é grande e o corpo não acompanha”. Em geral, a vida profissional dura de 40 a 50 anos. “Isso se a gente conseguir se manter em evidência, com excelência e muita técnica. Não achei que duraria tanto. Estou aqui porque meu físico está em forma”, revela a brasileira, que pretende seguir o exemplo da cubana Alicia Alonso, que deixou de dançar aos 70.
Lina Lapertosa, bailarina do Palácio das Artes, tem 32 anos de atividade profissional. Ela afirma que a carreira não precisa ser necessariamente breve, mas adverte: antes de tudo, o artista deve gostar do que faz – o caso dela. “Quero perdurar o máximo possível”, garante.
Em primeiro lugar, o corpo – instrumento de trabalho – deve ser tratado corretamente, recomenda Lina. “Devo cuidar dele para que dure mais tempo, sem lesão e machucados. Depois vem a alimentação saudável”, informa. A lista de cuidados é grande: não beber, oito horas diárias de sono e fazer aulas de balé, além de pilates ou musculação. Fisioterapia já virou rotina para Lina.
Ginecologista e obstetra, a bailarina lembra que a carreira médica pode durar até o fim da vida, desde que o profissional se mantenha atualizado. Por sua vez, o balé exige adaptações. “Tenho uma lesão no menisco, não dobro o joelho como fazia aos 20 anos. Mas e daí? Dobro de outro jeito, adapto. Com 58 anos, faço com outra qualidade, outra experiência. Enquanto sentir que dá prazer, vou dançar”, avisa.
Diretora da Companhia de Dança do Palácio das Artes, Sônia Mota tem 45 anos de palco. Ela rejeita radicalmente o senso comum. “A sociedade burra, conservadora e absolutamente desinformada se recusa, em pleno 2011, a aceitar que a nossa carreira pode ser longa. Tenho 63 anos, ainda danço. E com a consciência de que não faço passinho fraquinho”, explica.
O corpo faz arte e isso independe da idade, ressalta Sônia. “No Brasil, dança ainda é vista como condicionamento físico, símbolo de juventude e vigor. Acho um absurdo as pessoas pensarem isso. Não é assim, porque arte não tem idade. O bailarino pode ter 60 ou 70 anos e arte da dança em seu corpo. Se for artista, vai saber trabalhar o seu instrumento”, assegura.
Tamanha convicção veio das lições de Klauss Vianna, mestre da dança brasileira. “Fui bailarina fanática, confesso. Há 15 anos, Klauss me disse: ‘No dia em que deixar de ser bailarina nota 10, você será grande artista’. Aí, caiu a ficha: não preciso ser bailarina de carga, trabalhar seis horas por dia, mas usar a inteligência, a economia e a eficiência. Disciplina já está embutida em cada artista”, conclui.

