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Artista plástico Jorge Selarón é encontrado morto no Rio de Janeiro


“A escada é algo que nunca vai ficar pronta. Ela vai ficar pronta no dia da minha morte, quando eu mesmo me transformar na própria escada. Assim ficarei eterno para sempre”.
As palavras são do artista plástico Jorge Selarón, de 65 anos, em depoimento gravado em 2010, para o documentário dirigido pelo cineasta Stephano Loyo sobre a vida do ceramista que transformou em obra de arte a famosa escadaria entre os bairros da Lapa e Santa Teresa.
O artista foi encontrado morto, com o corpo carbonizado, na manhã de quinta-feira (10), nos degraus da escadaria, que lhe deram fama e notoriedade. A polícia investiga se foi suicídio ou se o crime foi cometido pelo ex-colaborador Paulo Sérgio Rabello.

Brigas com ex-colaborador 

Em novembro do ano passado, Selarón denunciou à polícia que vinha sofrendo ameaças de Paulo Sérgio, que exigia os rendimentos das vendas de quadros do artista. O registro da ocorrência foi feito na 7ª DP (Santa Teresa). No entanto, em depoimento à Divisão de Homicídios, responsável pela investigação do caso, o ex-funcionário negou as ameaças e qualquer envolvimento na morte do artista.
Amigo e fotógrafo das obras de Selarón, o policial civil aposentado Gemerson Dias se emocionou ao rever as cenas do documentário. Ele conta que no dia 25 de novembro, o chileno esteve em sua casa e relatou a briga que teve com Paulo Sérgio.
“Ele passou um bom tempo chorando, em pânico mesmo. Como não conseguia falar, ele escreveu e desenhou o seu diário, no qual ele relatou as ameaças. Fomos na delegacia do Idoso, mas eles não quiseram registrar queixa, alegando que já tinha sido feito um registro semelhante na delegacia de Santa Teresa”, conta Gemerson.
Segundo pessoas próximas ao artista, no fim de 2012, Selarón foi ao cartório para revogar a procuração que fez a Paulo, que lhe garantia os direitos de venda de suas obras.
A amizade entre Selarón e o então colaborador se abalou durante as férias do ceramista, quando Paulo passou a cuidar do comércio das obras e dos postais do artista. De acordo com amigos e vizinhos, assim que Selarón voltou de viagem, Paulo passou a exigir mais dinheiro, além de fazer ameaças e agressões.
“Induzir alguém ao suicídio é crime. Se ele [Paulo] não teve participação direta, teve indireta. Era flagrante e conhecida por todos. Selarón estava em pânico, e não deprimido”, argumenta Gemerson.
Por três meses, o cineasta Stephano Loyo acompanhou a rotina de Jorge Selarón. Geralmente usando roupas vermelhas, o artista dos azulejos coloridos confeccionava seus trabalhos na escadaria que ganhou seu sobrenome. O local se tornou um dos principais pontos turísticos da região e foi tombado pela Prefeitura do Rio em 2005.
Apesar da movimentação de pessoas, principalmente estrangeiras, quem circula pelo local reclama da falta de policiamento.
“Ali é muito mal policiado. Só se coloca policiamento em dia de eventos. No dia-a-dia não é assim. Quem frequenta ali, sabe que tem movimento do tráfico. Espero que agora, com a repercussão da morte do Selarón, ali ganhe um reforço no policiamento. Ele merece isso, em memória ao trabalho, que tanto fez para a região”, ressaltou Stephano.
O corpo do artista segue no Instituto Médico Legal (IML). O Consulado do Chile informou que já contatou a família dele, que mora no país, mas ainda não há uma resposta sobre o enterro. Segundo um amigo, Selarón queria ser cremado e que suas cinzas fossem jogadas na escadaria que ele imortalizou.
 Obra tombada
Dez anos depois de ter sido iniciada, a escadaria foi tombada pela prefeitura do Rio em 2005, pelo então prefeito César Maia. Selarón recebeu o título de cidadão honorário do Rio de Janeiro. O que originou a obra foi a decoração para a Copa do Mundo de 1994. Os mais de 200 degraus receberam azulejos coloridos, vindos de dezenas de países. Vale ressaltar que o artista viajou por mais de 50 países até se estabelecer no Brasil. De lá para cá, os mosaicos eram trocados por azulejos de fãs nacionais e internacionais.

O secretário de Patrimônio da Prefeitura do Rio, Washington Farjado, afirmou que pretende ir ao ateliê do artista para registrar como a escadaria está hoje, para que não seja descaracterizada. Para ele, a obra deixa de ser viva, já que Selarón sempre a modificava, porém ela se torna eterna. “Muito triste, pegou todo mundo de surpresa, porque foi um artista que tinha muita coisa para produzir. A partir da arte, sozinho, ele trouxe beleza para aquele lugar, um lugar que era comum, banal, virou especial. Isso é um aprendizado. Uma pessoa é capaz de transformar um lugar que vive, é capaz de cuidar. A escadaria era uma obra viva, ele estava sempre modificando, é um dia muito triste para a Lapa e para o Rio de Janeiro”, disse.

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